quinta-feira, 15 de julho de 2010

Alegoria do barco

Vinha a muito tempo preparando seu filho um pai muito amoroso, quem sabe o mais amoroso de todos, para uma viagem. Chegaria a hora em que ele teria que deixar seu filho tão querido num barco, para que ele pudesse navegar sozinho no meio dos oceanos, enfrentar as tempestades mais violentas e os ventos mais poderosos. O pai, como tinha consciência das dificuldades que seu filho viria a enfrentar, tratou de ensinar-lhe com calma, explicar-lhe cada detalhe do barco e prepará-lo para possíveis perigos. Alem disso, deixou a disposição do filho um manual de instruções do barco e milhares de pessoas que fariam o que fosse necessário para ajudar-lhe.
O momento tão esperado chegou e eles, cobertos de lágrimas amargas, despediram-se, prometeram que manteriam contato durante a viagem e que se veriam algum dia.
O pai viu seu filho abrir a porta que o levaria para os oceanos, com seu barco indefeso, frágil. No fundo ele tinha esperanças que seu filho se lembraria dele sempre e que algum dia eles se reencontrariam num lugar melhor. Mas para que isso ocorresse, o filho teria que passar por essa viagem, era inelutável.
Essa viagem consistia em sair de sua casa, onde o filho se sentia seguro, confortável, enfrentar os oceanos e por fim chegar a uma terra paradisíaca, onde o pai estaria lhe esperando. Para entrar nessa terra seria necessário somente destruir o barco, coisa que no início parecia tão fácil, e aos poucos foi ficando tão difícil...
Bom, voltemos ao filho e seu barco. O início, como qualquer início de viagem longa, foi difícil, pois havia muitas coisas a se aprender. Ele teria desistido não fosse o manual de instruções e as pessoas que o seu pai deixara para ele, que lhe ajudaram diante as tempestades. Mas todas as dificuldades eram recompensadas pela sensação de olhar e apreciar a paisagem, contemplar o horizonte infinito e sentir a brisa refrescante que lhe proporcionava momentos de puro prazer. Todo dia o filho assistia o pôr-do-sol e sentia uma vontade imensa de seguir viagem e de aproveitá-la. O pai era uma figura constante em seu pensamento, ele sentia sua falta.
Mas essa situação aos poucos foi mudando. O filho começou a perceber uma certa monotonia desgastante, não que a viagem tivesse mudado, mas a maneira de ver as coisas do filho tinha. Ele passou a deixar de lado a limpeza do interior do barco. Mas não o que ficava a vista às outras embarcações. Essa parte do barco ele fazia questão de deixar perfeita, limpa e ornada com peças caras. O barco se tornou um sepulcro caiado. E o problema maior era que quanto mais as pessoas elogiavam a imponência do barco, menos importava a situação do interior. Ele estava vivendo na podridão, mas se satisfazia com a idéia que os outros faziam de seu barco.
Depois de alguns dias ele já não se contentava em ouvir elogios, ele precisava ver os outros barcos arruinados, ou pelo menos em pior estado do que o seu. Passou então a atacar outros barcos. Deixava as outras embarcações totalmente destruídas, e com isso se sentia bem, se sentia superior. Isso levou a sua má reputação, e mais nenhum capitão queria passar perto de seu barco, muito menos navegar o resto da viagem ao seu lado.
É, caro leitor, ele estava sozinho. Os ventos e tempestades que no início foram superadas pedindo ajuda, com humildade, já não eram obstáculos tão simples, requeriam muito esforço dele, já que ele se tornara orgulhoso demais para pedir socorro. O pai, acho que nem é necessário dizer, era alguém distante, lhe dava preguiça pensar no pai, não queria mais saber dele. E assim se passaram dias e mais dias.
O filho então, solitário, se recolheu no interior de seu barco. Foi então que se deu conta da sujeira que tomava conta do lugar, do mal cheiro, cheiro de cadáver. Mas ele dava desculpas para si mesmo para não limpar: ele estava a muito tempo viajando, já passara o tempo de limpar o interior, e essas coisas falsas, tentativas de se enganar. Muito ridículo. Mas assim é o ser humano que se prende ao seu barco.
Numa noite fria seu pai lhe apareceu num sonho, e com calma, com compaixão, lhe disse:
“Filho, vejo que você se perdeu. Isso não estava nos nossos planos. A sua viagem está acabando e você não a aproveitou. Me dói o coração ver-te deitado na escuridão, na sujeira, enquanto você deveria estar aproveitando esses últimos dias da viagem, sentindo a brisa que lhe dava forças no começo, e ver que tudo valeu a pena. Para ser sincero, estou chorando. Viagem jogada no lixo, de que adiantou te preparar? Te deixar tantas pessoas boas? Não sei. Mas eu te entendo filho, o oceano apesar de lindo, tem sua maldade. E você caiu na armadilha.”
“Pai, você me abandonou!”
“Não, filho. Você me abandonou. Você me deixou de lado, preocupado em parecer aos outros. Mas como já te disse, eu te entendo. Você não é o primeiro, muitos de seus irmãos se perderam também. Faça o seguinte: você chegará em terra em poucos dias. Abandone seu barco e venha sem nada até o alto da montanha que verás. Lá estarei eu, te esperando. Espero te ver em breve. Não se esqueça que eu te amo.”
O filho acordou, mas disse que era somente um sonho, nada que merecesse atenção. Mais uma das desculpas para si mesmo.
Em três dias ele bateu contra uma rocha. Olhou pra cima e viu uma montanha enorme, uma luz no topo. Viu que dava para descer do barco e ir caminhando, mas então aconteceu.
Olhou para seu barco, para todos os enfeites, lembrou-se de todos os elogios que lhe foram direcionados e sentiu-se forte o suficiente para seguir sozinho, e ir para onde quisesse. Não precisava do pai. Manobrou seu barco, e saiu. Para onde? Vagar sozinho pelas trevas, até o fim dos tempos.
Você pode pensar, leitor, que tolo esse filho que deixou seu pai e preferiu a perdição. Mas o problema é que muitos de nós somos assim, que nem o filho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário