quinta-feira, 15 de julho de 2010

O menino que queria ser poeta

O menino queria ser poeta,
Mas por conselho de seu pai,
Não seguiu seu coração,
“Vai ser engenheiro, vai!”
E cabisbaixo foi o tal João.

Não lhe faltava coragem,
Mas lhe faltava vocação,
Imagine você, caro leitor,
Um pernambucano de Viração,
Estudando sobre vetor.

No fim do semestre,
Para João o reitor falou,
Que aquele não era seu lugar,
E da faculdade o expulsou.
Triste, João foi pro bar.

Tomou todas e mais algumas,
Mas isso não lhe contentou.
Então saiu pela cidade,
E achou o que procurou,
Uma prostituta de meia idade.

O nome de cartório era Raimunda,
Mas o de profissão era Sofia.
E com sua nova companheira,
Conhecida pela freguesia,
Passou a noite inteira.

No dia seguinte quando acordou,
Desacreditou no que via:
Na mão esquerda, no anelar,
Uma aliança havia,
E ele sem nada lembrar.

O casamento ocorrera à noite,
Enquanto João estava embriagado.
E ele, pensando que estava se ferrando,
Ficou muito mais que irado,
Mas acabou se apaixonando.

Alguns meses se passaram,
E Raimunda começou a reclamar,
Que o vagabundo de seu marido
Precisava ir trabalhar,
Antes que ele ficasse falido.

Motorista João foi ser,
E pelas ruas de Salvador,
Dirigia o seu busão,
Carregando em seu peito sua dor,
E em sua mente uma indagação.

Seria a Raimunda a certa?
Ela tratou de lhe responder:
Encontrou outro na cama com Raimunda,
E João sem poder crer
Levou um baita pé-na-bunda

Triste, melancólico e sozinho,
João não conseguia se amparar,
Mas o pior estava por vir,
No dia seguinte, quando foi trabalhar,
O chefe acabara de o demitir.

E ainda nesta noite,
De Pernambuco uma carta chegou,
Avisando ao “querido João”
Que uma charrete atropelou
Sua mãezinha lá em Viração.

Ah! Seu coração não agüentou,
João pensou em se matar,
Mas lembrou-se da poesia,
Que outrora o fizera deleitar
E achou-se com sorte porque ainda vivia.

Nessa época de sua vida,
João e a poesia desandavam,
Cada qual no seu canto,
E em prantos esperavam,
O que ambos queriam tanto.

E o que esperavam ocorreu
Numa tarde de desencanto e solidão,
Quando João o seu lápis pegou,
E versos saíram de seu coração,
Com uma sinceridade que o assustou.

E foi então que João percebeu,
Que vivera uma grande ilusão,
Que seu destino era estar sozinho,
E em meio a essa solidão
Seguir o seu próprio caminho.

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