quinta-feira, 15 de julho de 2010

Desabafo sentimental

Ah! Não fui eu que me fiz assim,
Sou obra do acaso, do Destino,
Um louco em busca do divino,
Me olho e me perco em mim.
Os percalços da vida aqui me soltam,
Olho em volta e o silêncio escuto,
Contemplo, admiro, e num surto,
Me escondo dos males que brotam.

As flores murcham, os dias entardecem,
Se os males aqui não brotassem,
Talvez as flores nem murchassem,
E os filhos nem chorassem,
Pelos pais que do nada padecem.
E eu então pergunto pro mundo:
Por quê tem que ser tudo assim?
Tão efêmero, tão imundo.
Mas ele não ousa falar até o fim.

Porque se ele falasse,
Amanhã quando eu sentasse na praça,
Acharia tudo tão sem graça,
Que acabaria por pedir que ele me tirasse,
Esse dom de agüentar toda desgraça.
Por isso me contento com a ignorância,
Nesse faz de conta que nos envolve,
Óbvio, imaginário, mas sem arrogância,
Que aos poucos me dissolve.

O vento que entra pela janela,
Traz as mágoas da humanidade sofrida,
As lágrimas de uma sociedade sem vida,
O frio de um coração que não é dela.
Esse cheiro da minha pátria desordenada,
Estou alérgico a mentiras descabidas,
Cansado de escutar a chamada,
Para mais uma dessas vindas e idas.

No centro desses sentimentos estou.
Eu, só eu, solitário e pensante.
Olho tudo aquilo que passa e que passou,
E vejo que tudo está muito distante.
Distante de ser mudado,
Mesmo de ser compreendido,
E enquanto não acham o remédio com que será curado,
Permaneço imóvel, calado, me dei por vencido.

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